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sábado, 14 de julho de 2012

ele não fumava

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Havia milhões de palitos de fósforo espalhados pelo chão de pedra suja da praça. Parecia que todos os habitantes da cidade iam ali para fumar seus cigarros, bagulhos, charutos, e que nenhum deles tinha um isqueiro e se pareciam mutuamente asquerosos demais para que alguém quisesse acender seu cigarro na chama do cigarro de outra pessoa. Há anos não se via um gari por aquelas bandas. Tudo ali parecia lembrança visual e você só não pensava que estava sonhando com o passado porque de vez em quando via coisas insanas, como um garoto de 10 anos dançando techno como um índio do Equador:
— Curtiu, hein, mano?
O moleque nunca deixava os dois pés juntos no chão, intercalava batendo e erguendo eles à altura do joelho, chutando o ar. Era quase como o Chaves empolgado. Seu amigo observava sentado em um banco, segurando uma bicicleta pelo selim.
— Lindo... Você tá parecendo um babuíno no cio!
— Babuíno no cio é a sua avó!
— A sua, aquela cafetina.
— O que é cafetina?
— É quem ensina sua mãe a trabalhar.
— Ah tá... se liga nessa então. – a música do seu celular mudou para um psy trance e o garoto passou a remexer cada pedaço do corpo.
— Cê tá brincando de mímica, mano? Agora você é uma enguia elétrica, acertei?
— Vai tomar no cu.
— Ô, choque! – chamou um outro jovem de longe, em uma bicicleta.
— Tá chamando você, enguia.
— Cala a boca!
— Choque! Bora logo, caralho, a gente ainda tem que pegar aquelas chinas hoje, lembra?! – gritou de novo o rapaz.
— Guentaí, Paulão! Sobe aí, moleque.
— Moleque é o caralho.
— Cê é embaçado, hein, mano? Sobe logo aí, porra!
E os dois desceram pela rua lateral em direção às chinas.




Um monge budista surgiu de uma das ruas e foi em direção ao centro da praça, onde estava o memorial de inauguração. Ele tinha a cabeça raspada e vestia uma única peça de roupa clara manchada que vinha dos seus ombros e ia até os joelhos, cobrindo seu corpo magro. Trazia um headphone na cabeça, cobrindo seus ouvidos com Clarence “Gatemouth” Brown. O bloco de concreto tinha a altura de um homem. O monge subiu nele de um salto, e se equilibrou em pé formando um 4 com as pernas e juntando as mãos espalmadas. Fechou os olhos e assim ficou, ouvindo o blues e meditando, perfeitamente imóvel.




Manos não gostam de blues, mas um deles tinha uma coleção de cds, The Blues Collection, que era seu tesouro, guardado em uma caixa debaixo da sua cama, que ele havia ganhado de um tio que morava em Louisiana e era um artista de rua – gaitista – muito famoso por lá. Ele era apaixonado por blues e queria ser Lightin’ Hopkins. De fato havia comprado um óculos escuro no camelô para se parecer mais com o “gato preto”. Este rapaz agora discutia com dois amigos em um banco próximo ao centro da praça.

— Juro, cara, não sei que graça você vê nessa música. – disse um de seus amigos, um rapaz de nick Orelha.

— Oreba, você não sabe de nada, mano! Não conhece nada além desse rap importado, que chega aqui fedendo a merda, e quer criticar o blues! Você devia ouvir, Carol, ia saber do que eu estou falando.

— Que bluuuss?!... – respondeu Carol, a amiga que estava na discussão, sentada do encosto do banco, com os pés no acento – Vê lá se eu vou ouvir “bluuuss”, olha a minha cor, Botega!

— Justamente, Carol, olha a sua cor! – respondeu Botega, que tinha que se esforçar para se lembrar de um bluesman branco. – Blues de respeito só negro sabe fazer.

— Isso não importa, Botega. – interveio Orelha – Eu continuo achando esse seu som muito caipira.

— Foi mal aí, metropolitano.

— Vamos parar, caralho! – gritou Carol – Vocês já viram aquele cara por aqui? – ela apontava para o monge, que já meditava há uma hora.

— Eu já vi ele uma vez. Ele estava daquele mesmo jeito.

— Quero ver de perto.

Ela pulou do banco e andou em direção ao monge. Os outros a seguiram.

— Por que ele faz isso?

— Ele deve estar querendo bater um recorde.

— Ele deve estar meditando – disse Botega – queria saber o que ele está ouvindo.

— Deve ser alguma música new age idiota. – disse Carol.

O monge não se abalava, não estava sequer escutando o que diziam. Estava tão concentrado que talvez não ouvisse nem mesmo o Memphis Slim solando nos seus ouvidos.

— Mano, isso é muito idiota.

— Concordo.

— Vocês deviam deixar o cara em paz, vamos sair daqui.

— Dá um dinheiro pra ele então, já que se importa tanto. Ele tá precisando de uns pano novo pra vestir.

— O mano não tem nem chinelo, doido – observou Carol.

— Não vou tirar o cara da paz pra dar dinheiro pra ele – respondeu Botega.

— Então enfia no cu. Vamo embora. – disse Orelha.

E seguiram por uma das ruas até muito longe.

— Vou deixar a Carol na casa dela, Botega. Se da minha casa der pra ouvir aquele seu som de viado quando eu chegar, eu te pego amanhã.

— Vá a merda... – disse Botega, entrando na sua casa, que era vizinha da de Orelha. Puxou sua caixa debaixo da cama e pegou um cd da sua coleção, B. B. King – The King of Blues, colocou no seu rádio, com o volume em boa altura e se deitou para ouvir o rei: “The Thrill Is Gone...”




O monge ficou na sua meditação até o blues acabar. Já eram 3 da manhã quando um homem atirou no seu pescoço, de baixo para cima, e o derrubou para lhe tomar o Ipod. Por algum motivo inexplicável, o monge ainda se encontrava na mesma posição em que meditava quando foi encontrado por um gari na manhã seguinte.

— Olha a paz no rosto desse rapaz.

— É como se ele estivesse sorrindo sem estar.

— Esse buraco no pescoço dele tá horroroso, será que ninguém viu isso?!

— Cala a boca, Agenor! Todo mundo viu que o cara tá morto.

— É – disse o gari – e se vocês me dão licença, eu tenho que fazer meu trabalho.

— O que você vai fazer?!

O gari pegou o corpo do monge, com certa dificuldade, pois este se encontrava duro com as pernas formando um 4 e as mãos espalmadas juntas, e o colocou dentro do seu carrinho de lixo com um grande saco preto.

— Cara! Você tá maluco?

— A gente tem que chamar a polícia!

— Você não pode fazer isso!

— Quietos! – disse o gari, cuspindo no chão e olhando cada um daqueles cidadãos assustados com um rosto feroz – EU limpo o lixo que VOCÊS fazem. Vocês mataram esse mendigo, e eu vou levar ele comigo. É assim que acontece. Não é como se vocês se importassem. Ninguém se importa. Vocês nunca olharam na cara desse rapaz, nunca deram comida pra ele, e agora o matam com um tiro e eu tenho que enterrar ele no aterro sanitário da cidade. VOCÊS são responsáveis por isso. Então calem essas malditas bocas e me deixem limpar sua sujeira.

O gari deu o nó no saco e fechou a tampa da lata no carrinho. Seu serviço na praça tinha acabado.

Ele já ia embora quando um cidadão disse:

— Você deveria era varrer esses fósforos do chão...

E o gari, sem olhar para trás, se deu ao trabalho de responder:

— Foda-se, isso é problema de vocês! Parem de fumar, seus filhos da puta.
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quinta-feira, 12 de julho de 2012

ratos se alimentam de blues

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Nesse Dia Internacional do Rock, meu segundo conto sobre o cotidiano fantástico é em homenagem a um dos pais do gênero, o Blues.



— Tem alguém nesse banco, meu jovem?
O rapaz no bar era alto e se curvava sobre o balcão olhando para uma parte do vazio que não se podia identificar. Aparentava uns 25 anos, talvez mais, com um penteado à Elvis um pouco bagunçado e barba de alguns dias. Vestia um jeans escuro amassado e uma camisa simples preta. Ouvindo o estranho, ergueu os olhos do seu copo de aguardente e piscou algumas vezes, como despertando de um devaneio, antes de dizer:
— Senhor?
— Não me recordo de ter adquirido nenhum escravo, não sou seu senhor.
— E eu não costumo tratar ninguém como superior, só não entendi o que você disse.
— Perguntei se havia alguém sentado aqui.
— Podia haver alguém aí até antes de eu chegar.
— Está sozinho?
— Na maior parte do tempo.
Não era possível definir a idade daquele senhor. Vestia um terno negro com uma camisa branca aberta no peito. Um chapéu de feltro negro com uma fita de seda cinza cobria seu cabelo grisalho. Tomou lugar no balcão, acendeu um cigarro e pediu uma dose de uísque. O balconista serviu a bebida e lhe ofereceu um cinzeiro. O velho tragou demoradamente seu cigarro, virou-se para o jovem e perguntou:
— Onde estão seus amigos?
— Em algumas das cidades por onde passei.
— Não tem amigos aqui?
— Não na minha definição de amigo.
— E sua namorada?
— Não tenho uma.
— Por quê?
— “Por quê”?
— Sim, por quê?
O jovem tomou sua aguardente de um trago, estalou os dedos pro balconista e apontou o copo vazio. Pensou um pouco enquanto observava a cachaça envelhecida sendo despejada no pequeno copo até enchê-lo e disse:
— É uma boa pergunta.
— Já teve uma namorada?
— Não.
— Como! Você já teve tempo suficiente para se apaixonar a essa idade.
— A que idade, vovô?
— Bom, você tem quantos anos? Vinte e cinco, vinte e seis?
— Vinte.
— Não minta pra mim, rapaz.
— Eu nunca minto, acho um erro estúpido de se cometer. Não raro as pessoas pensam que sou mais velho. Deve ser minha aura amena, meu ki em repouso: “ar de velho”. Mas como esse tipo de coisa não faz sentido, creio que meus trejeitos acabam expressando a tranqüilidade que eu penso ter. Jovens não são calmos.
— Realmente. Você é sempre assim?
— Sempre, pouca coisa me abala.
— Isso é muito bom, rapaz.
— Pois é. Ambrose Bierce diz que a paciência é uma forma menor de desespero, disfarçada em virtude.
— Você não me parece desesperado.
— E não sou. Sou indiferente demais para me desesperar.
— Então você não se importa com nada?
— Com muito pouco. Não conheço muitas coisas que importem.
O velho deu uma boa puxada no seu cigarro e tomou um gole de uísque. Demorou a soltar o ar. Soprou a fumaça na direção do copo e aquela imagem, iluminada pela luz fraca do bar, era inegavelmente bonita. O balcão brilhava com algumas manchas de copos de meia hora atrás.
— Aceita um cigarro, rapaz?
— Eu não fumo.
— Se importa que eu fume perto de você?
— Nem um pouco.
— Você não parou de contrair as narinas desde que eu acendi o cigarro.
— Eu não gosto do cheiro.
— Então você se importa – disse o velho, puxou a chama do cigarro quase até o filtro e o apagou no cinzeiro. Soltou a fumaça pelas narinas devagar.
— Se você não tivesse falado comigo, eu teria saído do balcão.
— Não me parece justo.
— Nem a mim, mas prefiro isso a pedir para a pessoa apagar o cigarro.
— Ela tira seu direito de respirar e você não quer tirar o dela de fumar, você é mesmo muito tranqüilo.
— Pelo menos eu tenho direito de me afastar de pessoas assim.
— Tem razão, me desculpe.
— Relaxa – disse o jovem erguendo uma mão espalmada e sorrindo com os lábios. Tomou mais um gole da sua cachaça.
— Que espécie de lugar é esse?
— Qual lugar?
— Esse bar.
— É agradável, nunca entrou aqui?
— Não. Tem um rádio tocando Bukka White. Quem conhece Bukka White?!
— Você.
— E você, pra saber que é o próprio.
— Eu venho muito aqui, conheço toda a maldita coleção de blues desse cara.
— Achei que ninguém mais ouvia blues, meu jovem.
— E não ouvem. Não eles. Mas seres como esse taberneiro aí se alimentam de blues.
— Que tipo de seres?
— Poetas, esses ratos.
O velho se recostou no balcão para enxergar o outro lado e viu um sujeito vestindo uma bermuda e chinelos, com uma camisa aberta até o último botão mostrando sua pança respeitável e seu peito peludo, sentado numa poltrona, batendo um pé ritmado no chão e balançando a cabeça, com um sorriso no rosto e olhos fechados.
— Eu o conheci. – disse o jovem – Costumava atender os clientes pessoalmente. Pelo menos alguns deles. Mas parou há um bom tempo.
— Por que ele parou? – quis saber o velho.
— Percebeu que ninguém valia o que ele servia em seus copos americanos.
— Ele deve ter ficado muito amargurado para pensar que um homem não vale sequer um copo de uísque.
— Não foi o que eu disse.
— Eu não entendo.
— Aqui não se servia essa bebida ordinária que nós tomamos para esquecer quem somos.
— Há tempos eu não esqueço – disse o velho, virando o copo abandonado no balcão de um trago e pedindo outro para o garçom com o mesmo estalar de dedos do jovem. Percebeu ser eficiente. Tinha um copo cheio em mãos quando perguntou: “e o que se servia aqui?”
— Ausência, delírio, luxúria, melancolia, memória, silêncio, sonho, amor... O amor desse rato faria você chorar antes de tomar fôlego para um segundo gole. A luxúria dele deixaria você de pau duro em segundos, e depois de a sentir descendo pela sua garganta, você bateria uma punheta e gozaria no copo que acabou de esvaziar antes que percebesse que abaixou as calças.
— Mas isso é...
— Repugnante. Todos achavam isso. E mesmo assim continuavam vindo aqui. Vermes atraídos por uma satisfação maior que a vida que levavam, se arrastando por aí. Eu conheço esse buraco há um bom tempo. Devo ser a única pessoa da época da névoa que ainda vem aqui.
— Por que época da névoa?
— Era o que serviam pra gente. Idéias nubladas. Idéias são muito tênues. Mesmo sendo destiladas pelo poeta, ainda não passavam de névoa. Uma névoa deliciosa de se tragar. Pelo menos para mim era. Aposto que para todos os que se enfiavam porta adentro atrás daquelas garrafas preciosas. Luxúria era a mais procurada. Mas ninguém sabia apreciar a luxúria. São todos tolos no fim das contas. Eu me servi de luxúria uma vez. Saí pela porta antes que pudesse pensar em pagar a conta. Com uma ereção me cortando a glande. Fui à casa de uma amiga de infância que eu sempre amei, mas que nunca conheceu minhas intenções. Até o dia em que ela foi até o portão ver quem estava tocando a campainha e se deparou comigo nu na calçada. Não devia haver ninguém em casa aquela noite. Entrei fechando o portão atrás de mim e antes que ela pudesse perguntar o que acontecera às minhas roupas, já estava com minhas bolas roçando seus lábios, e uma glande pulsando na sua garganta. Eu a joguei na grama e abri suas pernas com força, me enfiei entre elas e beijei sua boca úmida de sêmen. Nunca soube se o hálito dela era bom. A fodi. Suguei cada poro da pele macia e branca, cada terminação nervosa da pele vermelha. A fodi por horas sem gozar, e quando o fiz ela já estava tão sufocada de prazer que não conseguiu dizer mais nada. Ela agüentou as duas horas e meia muito bem disposta. A deixei deitada na grama e fui embora, vendo aquela buceta rosa regando a terra. A vadia obviamente não era virgem, e nem eu queria que fosse. Teria sido horrível pra ela.
O velho não disse nada por um longo tempo e, embora o jovem achasse que veria uma expressão abismada naquele rosto estranho, ele sorriu com o canto da boca, mostrando algumas poucas rugas nas bochechas idosas.
— A poesia tem muitas faces não é, meu jovem?
— Muitos sabores, eu diria.
— Creio que se você tivesse tomado amor naquela noite, você estaria acompanhado agora e eu não teria ocupado um banco ao seu lado no balcão.
— Quem sabe? Eu não gostaria de voltar no tempo e testar. Talvez minhas próximas garrafas fossem melancolia, memória, ausência e, de todo modo, o rato não as serviria mais.
— Você nunca mais a viu?
— Vi, claro que vi. Mas a partir daquele dia ela não era nada além de uma buceta molhada na minha presença. E eu não tinha mais tesão nenhum por ela. O gênio dela é que me excitava, mesmo ela tendo seios ótimos.
— E quando foi que o poeta deixou de servir sua poesia engarrafada?
— No dia seguinte ao que eu saí sem agradecer a ele. Eu era o único cliente que considerava o que ele fazia como algo incrível, que o cumprimentava pelo seu talento. Quando até EU saí sem ao menos erguer um copo em homenagem ao rato, ele desistiu de destilar idéias. Ou ainda o faz, mas não as tira mais da cabeçorra redonda. Ele tem uma aparência muito melhor desde então. Parece mais feliz.
— Pelo menos os bluesmen o entendem. – disse o velho, olhando mais uma vez para o poeta sentado, agora com as mãos postas sobre a barriga e o pescoço recostado na poltrona, ouvindo Professor Longhair assobiar uma canção bucólica.
— NÓS o entendemos, mas eu nunca consegui me desculpar. Só posso vir aqui e beber um pouco dessa aguardente. – virou o copo, fechando os olhos e batendo no balcão com a garganta queimada – Nenhum outro buraco me acolhe tão bem. Não me sinto bem lá fora. A indiferença me consome nas ruas.
— E aqui dentro não?
— Não... – disse o jovem estalando os dedos para o garçom – Porque aqui eu ainda tenho uma esperança. O garçom me disse que o rato tem uma garrafa que ninguém jamais pediu. Eu tenho esperança de que ele me perdoe um dia e me sirva essa garrafa, em nome dos velhos tempos.
— Que garrafa é essa?
— O entusiasmo... eu me tornei indiferente. Livrei-me da dor, dos casos de amor fracassados, da decepção pelos prazeres inalcançáveis, da preocupação, da culpa, da insônia. Mas com tudo isso se foi a inspiração para a única coisa que eu sabia fazer bem.
— E o que você fazia, rapaz? – disse o velho curioso, fechando o terno com frio.
— Blues.
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